Aparecida Ramos -  Prosa e Verso

Apenas palavras que a alma e o coração não calam.

Textos


 
Nessa minha estrada,
                                           um pouco de você,
um pouco de cada um,
                                        recortes diversos,
detalhes que não se esquece...

 

NA CASA DO PRIMO, ERA O CORDEL QUEM REINAVA

 
Não é qualquer pessoa que tem ou teve um primo bem mais velho, bem antigo, mais velho do que algumas de suas tias, porque nasceu antes delas. Ele era o primeiro neto de minha avó, filho da primeira filha. Minha mãe era a caçula da família.
Desde meus primeiros anos de vida eu já o conhecia. Era uma figura carismática, simpática, um homem bastante tranquilo, religioso e caridoso. Às vezes penso que ele nasceu não somente para viver sozinho, mas para servir às pessoas, ajudar a todos da família e a qualquer pessoa que o procurasse vivenciando alguma dificuldade.
Durante a minha infância, período em que convivi morando próximo à sua residência, ele foi uma boa referência para todos nós, eu, minhas duas irmãs, meu irmão e os outros primos e primas. Recordo-me que era como se fosse um tio preocupado com a nossa segurança, já naquela época ele nos acompanhava para alguns eventos, quando nossos pais ou avós não podiam ir junto. Não era considerado como primo, mas parecia um tio ou um segundo pai, para todos nós, principalmente após a partida de meu pai, ele não nos perdia de vista, mesmo ali naquele lugar tranquilo onde nada parecia oferecer perigo. A gente nem ouvia falar sobre fatos ou acontecimentos envolvendo violência na região. Mesmo assim, ele sabia que cautela nunca era demais.
Então, logo que aprendi a ler, por volta dos 7 anos, porque desde que nasci minha casa vivia cheia de cordéis, canções e poemas (impressos) e livros. Com orgulho, confesso a vocês que tive a felicidade de ser filha de um poeta, um homem que amava a poesia, que primava pela qualidade da caligrafia e pela palavra escrita e falada. Mas ele partiu para sempre, quando eu completei 11 anos. E, por não ter muito para onde ir, porque minha avó e minha mãe não permitiam que fôssemos para a casa de vizinhos, íamos para a casa do primo. Havia um açude de água doce bem próximo à casa, muitas flores e árvores frutíferas. Lá, as guloseimas vinham na bandeja e na hora certa. Ele era o cara que gostava de se alimentar bem, e ele mesmo preparava as refeições, pois sempre morou sozinho. Ainda lembro o tempero, o sabor da comida que ele fazia. Era também obstinado por leituras, lia muito a Escritura Sagrada, inclusive o Antigo Testamento, sabia de cor; e possuía um acervo invejável de Cordel. Eram dezenas e dezenas de folhetos (guardados em malas) dos quais eu ainda lembro os nomes de muitos desses poetas. E eu, aquela que aprendeu a ler primeiro, porque também era a mais velha dos irmãos e primos, ia à casa do primo pegar cordéis para ler em casa, e lia para meus avós, que adoravam e se encantavam com as histórias de amor, do cangaço, de reis e rainhas, de princesas e príncipes em reinos encantados.
José, além de amigo, companheiro e conselheiro, penso que possuía algumas características de um "quase" monge ou ermitão.
Ele partiu para a outra dimensão há mais de uma década, deixando um casal de filhos já adultos. Sofri bastante com essa perda. Ele era alguém que eu amava e respeitava como se fosse meu segundo pai.
José, não apenas lia Cordel, mas sabia de cor, e adorava cantar os versos. Também era um exímio contador de histórias, estórias, causos e contos.
Ele não perdia nenhum evento religioso (em nosso Sítio e circunvizinhos) nem eventos culturais a exemplo de pastoril, lapinha, ciranda, coco de roda e... principalmente festa de poetas (cantorias). Em quase todos, nós estávamos presente.
Aparecida Ramos
PS. Talvez esse texto pudesse ser classificado como Crônica/homenagem.

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Imagem:

https://www.google.com/search?q=VERSOS+GUARDADOS+NA+MALA&
Ísis Dumont
Enviado por Ísis Dumont em 10/07/2019
Alterado em 11/07/2019
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