Aparecida Ramos -  Prosa e Verso

Apenas palavras que a alma e o coração não calam.

Textos



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"Você nunca viu nada igual"



"Há alguns dias, assisti uma reportagem em um canal de tv, na qual uma pessoa entrevistada falava sobre o Museu da Loucura. Confesso que fiquei impressionada e porque não dizer estarrecida em alguns momentos ouvindo "detalhes" chocantes naquela entrevista. Eu nunca ouvi  (antes) falar sobre o assunto e isso despertou-me a curiosidade em pesquisar para saber mais sobre essa realidade cruel, desumana, a qual foram submetidos nossos irmãos, por não terem o uso da "razão".



Museu da Loucura


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O Museu da Loucura foi inaugurado em 16 de agosto de 1996, através de uma parceria entre a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena (Fundac).
Faz parte do projeto “Memória Viva” e resgata a história da cidade, mantendo em seus locais originais o Núcleo Histórico. Está instalado no torreão do hospital construído em 1922.
É uma importante construção arquitetônica considerada símbolo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), fato que motivou a escolha do local para abrigar o museu.
Tem como objetivo principal resgatar a história do primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais, o lendário Hospital Colônia de Barbacena. Oferece um espaço para discussão e reflexão acerca das atuais diretrizes no campo da saúde mental. O acervo do museu é composto por textos, fotografias, documentos, equipamentos, objetos e instrumentação cirúrgica que relatam a história do tratamento ao portador de sofrimento mental.
No espaço existe também, a galeria de arte que oferece oportunidades para exposições de artistas da região e divulgação da grife “Pirô Crio”, composta por trabalhos manuais e de artesanato feito pelos usuários do hospital.
O Museu da Loucura serve de elo entre a instituição e a sociedade, e tem a expectativa de proporcionar a quebra do estigma contra o portador de sofrimento mental, despertando reflexões sobre as fronteiras entre a loucura e a razão.

Wikipédia, enciclopédia livre

"Conhecer um pouco  essa história, possivelmente nos levará a outro "olhar" sobre a "loucura e sobre nós mesmos".
O Museu da Loucura preserva um pouco a história do antigo, deprimente e lendário "Hospital Colônia de Barbacena"-MG, lugar onde se praticava as maiores atrocidades para com os doentes mentais daquela época. Esses fatos terríveis, monstruosos, fizeram a "fama" da instituição.
É praticamente inacreditável que mentes de seres "ditos" racionais, evoluídos, tenham chegado ao ponto de tratar seus semelhantes, portadores de esquizofrenia, com desinteligência e tamanho preconceito! Sabe-se lá se não havia uma predisposição para a maldade, um vácuo nessas mentes, talvez dispostas a abrigarem e a pôr em prática instintos de crueldade. Entretanto, também não se pode descartar a possibilidade de um sistema preconcebido para não "funcionar". 

"Assim como acontecia nos campos de leprosos de antigamente os equizofrênicos, ou loucos, foram - e são - retirados do convívio social, familiar e mundano. A sociedade, suas famílias (!) os colocaram à parte, ainda colocam, e como se não fosse suficiente esta exclusão, há este terrível caso onde humanos flagelam humanos em troca de uma fútil tranquilidade. 

O Museu, inaugurado em 1996, retrata e expõe claramente e com coragem, a história deste que foi primeiro hospital psiquiátrico do estado, criado em 1903 como Assistência aos Alienados do Estado de Minas Gerais. Lá funcionava antes um Sanatório particular para tratamento de tuberculose que havia falido e estava desativado. O "hospício", segundo diversos registros históricos, situa-e em terras da antigaFazenda da Caveira cujo proprietário era Joaquim Silvério dos Reis, conhecido na história mineira como o delator da Inconfidência.
De interessante construção arquitetônica o espaço do museu deixa os visitantes, de certa forma, com um sentimento de melancolia e apreensão, mas sem falsos dramas ou sensacionalismo. A imersão no conteúdo das salas permite uma profunda reflexão sobre o mundo, sobre humanos e, principalmente, sobre nós mesmos e nossa relação com o diverso, com o difícil... A primeira sala mostra o relato da criação do hospital, sua história e personagens principais da época com muitas fotos e destaque para um exemplar genuíno do primeiro telefone da cidade de Barbacena que era instalado no hospital. É recomendado paciência e atenção nesta sala para que se possa "entrar no clima" do lugar.
 Destaque negativo da sala para um ofício da Secretaria da Saúde destinado ao diretor do hospital psiquiátrico orientando para que fossem retiradas as camas dos quartos dos doentes e estes passassem a dormir no chão para que coubessem mais deles num mesmo quarto. Uma desumana solução para a superlotação que mostra o descaso de autoridades para com aquelas pessoas.

A sala número dois é talvez a mais interessante e impactante pois retrata as maneiras que os doentes eram tratados e as crueldades a que eram submetidos, tudo ilustrado com fotos e objetos que chegam a dar arrepios, como os aparelhos de eletrochoque, prática introduzida na psiquiatria em 1938 e que produz, segundo especialistas, resultados eficazes se utilizada com moderação e não nas cavalares doses que se faziam comuns no hospital de Barbacena. Ainda nesta sala vemos outros exemplos de materiais que compunham o dia a dia dos doentes, tais como grades das celas onde ficavam, aparatos de uso famacêutico dentre outros de cunho médico e mesmo de tortura sob pretexto de contenção. Após uma olhada nas pesadas algemas expostas em uma vitrine foi triste constatar, neste momento, o quão sem valor eram aquelas vidas para quem devia cuidar delas e a sala seguinte revela muito disso ao mencionar como as famílias dos "loucos" os levavam já com intenção de interná-los para sempre e de nunca mais visitá-los.

Em seguida a visita torna-se um tanto mórbida ao pararmos para ler alguns textos muito interessantes que contam como os funcionários do hospital chegavam a cozinhar corpos de doentes mortos em tambores de gasolina para que sua carne derretesse e os ossos pudessem ser vendidos às faculdades de medicina da cidade e região. Nesta mesma sala, já a quarta, vê-se fotos dos pátios, quartos e de outras dependências do lugar como eram antigamente, fotos muitas vezes capturadas durante visitas de famosos psiquiatras de todo o mundo.

Outra impressionante exposição do museu é a representação de uma sala de cirurgia na qual vemos alguns instrumentos que eram utilizados antigamente e ainda um exemplar de crânio de um ex-paciente e algumas radiografias. As práticas cirúrgicas adotadas no hospital eram, em sua maioria, degradantes, cruéis e sem qualquer noção de cuidado humanitário ou solidário com os internados. Frágeis e sempre confusos eles ficavam sempre e completamente à mercê de inescrupulosos médicos e gerentes do hospital que objetivavam tudo, menos seu tratamento adequado.
Termina-se a visita com uma exposição de divulgação da grife “Pirô Criô”, composta por trabalhos manuais e de artesanato feito pelos usuários do hospital. E este é momento propício para que sejam feitos exames de consciência, momento para procurarmos nosso lugar nesta sociedade onde os valores são demasiadamente turvos, onde pessoas não são mais que nada. 

A psiquiatria passou por algumas evoluções significativas e os esquizofrênicos aos poucos, e em poucos lugares, têm deixado de ser tratados como casos perdidos para serem encarados de frente como seres humanos portadores, sim, desta doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza principalmente pela perda do contato com a realidade; não pela perda das características de seres humanos. Que realidade é esta que nos orgulhamos de ostentar? Que vergonha é esta que temos de ter ao nosso lado irmãos humanos que merecem talvez muito mais que nós a atenção que lhes é negada?
Houve significativas melhorias na psiquiatria brasileira, com movimentos de luta pela humanização do tratamento e dos hospitais, abolição dos manicômios e, principalmente, pela revolução dos métodos utilizados e do modo de ver o portador de esquizofrênia e outras doenças mentais. Como relata este trecho de um artigo da Wikipédia: "As políticas para a saúde mental foram objeto de vivo interesse de atores sociais que a influenciaram através de atuações externas à gestão sanitária nas últimas três décadas, determinando, em grande medida, sua trajetória. Amarante define reforma psiquiátrica como um processo histórico de formulação crítica e prática, que tem como objetivos e estratégias o questionamento e elaboração de propostas de transformação do modelo clássico e do paradigma da psiquiatria (1995). No caso brasileiro esse processo é tributário dos debates teóricos e das experiências que constituem o ideário da "nova psiquiatria" (Venancio, 1990). No Brasil, o processo se iniciou no final da década de 1970, no contexto político de luta pela democratização. O principal marco de sua fundação é a chamada "crise da Dinsam" (Divisão Nacional de Saúde Mental), que eclode em 1978. Os profissionais da área denunciavam as péssimas condições da maioria dos hospitais psiquiátricos do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro e vários foram demitidos. No mesmo ano, no V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, uma caravana de profissionais da saúde demitidos no processo de lutas da Dinsam divulgou o Manifesto de Camboriú e marcou o I Encontro Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, realizado em São Paulo, em 1979. Neste processo surge o principal protagonista da reforma psiquiátrica brasileira, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)."
Após isso ganhou-se em certa qualidade no tratamento, hospitais manicômio como o de Barbacena foram fechados, pessoas presas por maus tratos e crueldade, bem como assassinatos. Mas ainda resta o preconceito, numa das piores formas em que se manifesta, uma forma por vezes disfarçada, mascarada de piedade e que na verdade é a pior patologia a que está exposto o portador de esquizofrênia. O abando familiar e social resistem ao tempo e a sensação de que a "loucura" é uma condenação que nasce com o doente e traça sua sina para sempre permanece ainda nos dias de hoje; houve reforma da psiquiatria mas não uma reforma da sociedade.
Do Site: Obvious
 Parabenizo-o pelo importante e árduo trabalho, e simultaneamente agradeço    a partilha de informações relevantes!

Isis Dumont
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Ísis Dumont, Wikipédia e Obvious
Enviado por Ísis Dumont em 28/05/2013
Alterado em 28/05/2013
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